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Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso



Terça-feira, 07.10.08

Auto-mutilação/cutting

 Existem assuntos que me são difíceis de abordar. Mas à boleia do video que postei ontem, e que expõe a importância dos media na (de)formção das nossas crianças, não posso deixar de abordar aqui um assunto deveras preocupante, e que toda a gente finge não ver:

 

 

 

A automutilação, ou cutting, não é um problema que se passa "lá fora". Passa-se "cá dentro", e às vezes mesmo dentro de casa...

 

 

São muitas vezes gritos de socorro.

 

Patológicamente, percebemos que tem a ver com personalidade borderline e surge muitas vezes inserido num quadro de depressão

 

Tem pontos em comum com a anorexia e a bulimia, enquanto quadros de diagnóstico de doença mental.

 

 

 
 
Tanto a anorexia como a bulimia são consideradas doenças mentais, e como tal são definidas no DSM IV, o manual que consagra TODAS as doenças mentais. Se não está lá, não o é (até que seja comprovado e publicado). No entanto  a personalidade borderline vem lá indicada, como "um padrão pervasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade"
 
O manual aponta entre os critérios de diagnóstico do que também é chamado "transtorno de personalidade limítrofe"  dois que considero de extrema importância como atalhos para onde quero chegar: 
 
Ponto 3.- Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self (si mesmo). 
Ponto 5.-  Recorrência de comportamentos, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante.
 
 
Pode, como tal, derivar de uma infância traumática (principalmente o abuso infantil e violência), da inexistência de auto-estima, e até de transtornos em termos de auto-imagem. Alguns pesquisadores apontem uma predisposição genética, além de disfunções no metabolismo cerebral.
 
Ambos, depressão e personalidade borderline pressupõem  um sofrimento imenso, que é transversal a todos os comportamentos indicados: distúrbios alimentares, automutilação, e os novíssimos vigorexia (exercício físico levado ao extremo) e ortorexia (preocupação doentia com o consumo de alimentos naturais e saudáveis) - não inseridos no DSM IV.
 
 
"A automutilação rotineiramente acontece durante experiências dissociativas e traz alívio pela reafirmação da capacidade de sentir (e existir) ou pela representação de um castigo simbólico do sentimento de ser "mau"."
 
Ou não.
 
Ou é o esforço desesperado de controlar alguma coisa, de decidir algo que só depende de si próprio. Os transtornos alimentares são muitas vezes apenas isso: a luta pelo domínio, pelo poder. É possível controlar a fome, as cãibras que esta provoca, ganhar. È possível suportar a dor, e mais, sentir-se vivo através dela. Como um relato que li no Orkut, assinado por Angel:
 
"é como se a dor de viver fosse embora com o sangue"
 
Escrevi, em Dezembro do ano passado, um post sobre o assunto, "Educa...quê?"http://donadecasa.blogs.sapo.pt/81266.html ).
 
 
Soluções?
 
Fórmulas não as há.
 
Olho aberto, ouvido atento (mesmo quando estamos mais que cansados e só nos apetece mandá-los para o quarto), linhas de comunicação abertas, confiança mútua, responsabilização desde pequenos (até escolherem a roupa que vão usar no dia seguinte, aos dois anos, é um bom começo...) 
 
E costumo aconselhar que, em caso de dúvidas, ou suspeitas de que algo corre mal, marque uma consulta no psicólogo...PARA SI. Seja qual for a idade, os dramas que os consomem e que transbordam para nós, e com os quais não sabemos lidar, é sempre bem vinda uma ajuda de quem é imparcial.
 
Escrevi um testamento. Sei que havia muito mais que queria escrever, e tenho a sensação de não ter passado a mensagem que queria...
 
Mas, uma última adenda:
 
-o amor cura tudo.
 
Fátima

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Fátima Bento às 23:11


postas de pescada

De Joana a 08.10.2008 às 03:33

Um tema que não me é de todo desconhecido...
Já actualizei o meu blogue.Obrigada por toda a força, Fátima. Parece que pressente. :)


Abraço,
Joana

De Fátima Bento a 08.10.2008 às 18:18

E eu já li e comentei :) .

Já leste o post que destaquei?

Continua assim, com força a defender as tuas convicções e a lutar por ti. Ás vezes é difícil, mas vale sempre a pena!

B'jinhos,

Fátima

De Xana a 08.10.2008 às 10:34

Bom dia.
Quanto a pedires desculpa por teres dado parabens mais tarde, estás perdoada, hihi
A sério não há problema nenhum, quantas veses me esqueço de dar parabens a alguem meu familiar ou amigo, montes.
Mesmo assim ainda os deste, por cá mta gente da minha familia não se lembrou até hoje.
Beijinhos
xana

De Xana a 08.10.2008 às 14:30

O que eu já me ri contigo. Pois as psicologias também é comigo.
O problema não é medica receitar remedios é eu aceitar tomá-los.
A minha mae é depressiva crónica há 16 anos. Só eu sei o que passei e passo com ela, entre elas as tentativas de suicidio.
Como vejo q a pesar de montes remedio q ela ja tomou eu nao a vejo ficar boa, eu sempre disse que nunca tomaria nada, que seria sempre eu propria com a minha força de vontade. Acontece que a só a força vontade nesta altura não chega.
Obrigada pelas tuas palavras de força.
Vamos em frente que a Vida é BELA.
bjs
xana e pinxesas

De Eduarda Maria a 08.10.2008 às 16:04

Fatima,
é uma realidade que eu desconheço e fico impressionada com o sofrimento que sentirão estas pessoas.
Meu Deus! Nestas situações eu fico sem palavras.
Eu tenho os meus momentos de dor, sofrimento, solidão, tristeza, raiva, revolta tudo o que possas imaginar, mas felizmente assim não.
Como tu dizes:O amor cura tudo, mas o que acontece muitas vez é que estas pessoas não tem amor. Será?
Beijinho
Eduarda

De R.Cheiros a 08.10.2008 às 16:22

Olá Fátima

Este post além de muito bem conseguido fala-nos de um tema preocupante que como tu dizes e bem muita gente tende a fechar os olhos ou simplesmente anda tão "ocupado" que não se apercebe... Atinge mais jovens do que se pode imaginar e acredito que seja um grito desesperado de chamar a atenção. O amor ajuda bastante mas nada se consegue sem acompanhamento médico. O Daniel Sampaio tem vários livros bem elucidativos sobre o problema e que eu recomendo vivamente.
Beijocas

De Fátima Bento a 08.10.2008 às 18:25

Eu conheço o trabalho do Dr Daniel Sampaio - tenho inclusive quase todos os livros dele. Em "Tudo o que temos cá dentro" ele aborda de forma excepcional o suicidio adolescente, e dor que estes comportamentos englobam.

E é claro que só o amor não chega. Mas a equação será: amor.grito-de-socorro(atenção;alerta-vermelho)= procura-de-ajuda(médico)

E a equação funciona!

B'jinhos,

Fátima

De Fátima Bento a 08.10.2008 às 18:28

Eduarda:
É muita dor, muita solidão. Esta é uma sociedade doente, que trabalha todas as horas por dia que pode para poder dar aos filhos tudo menos o que eles precisam a sério:

ATENÇÃO E AMOR.

Fátima

De Eduarda Maria a 08.10.2008 às 18:37

Fatima, bem haja!
Tens toda a razão.
A sociedade está doente.
A maioria dos pais nem sabem o que estão a perder! O que estão a desconstruir!
Quando tiverem tempo para os filhos são eles que já não tem tempo para os pais...
Tanto tempo perdido e amor desprezado.
Por mim, estou a investir no que é mais precioso para mim: o meu filho!
Carreiras? Profissoes? Não é a minha prioridade.
Bjs
Eduarda

De Fátima Bento a 08.10.2008 às 18:48

E era tão bom que mais pessoas pensassem assim!

No entanto há que atentar nas excepções: há agregados familiares que só subsistem com dois ou mais ordenados, o que leva a que os pais tenham muitas vezes mais que um emprego... há sempre as tais cambiantes de cinzento... e não é muita gente que pode desistir de trabalhar para ficar em casa com os infantes... e há o resto: os que não podem desistir de trabalhar para cuidarem dos descendentes, porque não abdicam do jantar, do cinema, do teatro, do IPhone, do plasma...

E infelizmente esses são os que dói mais observar...

Fátima

De Marla a 09.09.2010 às 21:10

  Acabo de descobrir que eu tenho o Transtorno de Borderline.
  Isso me assusta e ao mesmo tempo me tranquiliza, sabendo que o muitos fatos ocorridos no decorrer da minha vida tem uma explicação.

De Fátima Bento a 09.09.2010 às 23:29

E estás a ser acompanhada e medicada, certo? Esse é um problema bastante delicado, que tem que ser acompanahdo próximamente e com muito cuidado e carinho. Qualquer coisa, podes falar comigo por email para fatima_bento, @sapo.pt.

Estarei sempre aqui, se precisares.

b'jinhos e aguenta firme!

De Ermesson cardoso a 11.11.2011 às 02:59

infelizmente e difícil de mas estou cançado de machucar os outros a minha volta, cançado de sofre, de ser visto como louco, de sentir o cheiro do sangue, das cicatrizer no meu braço, e infelizmente e muito dificil de parar,  ainda bem que tem pessoas que senten vontade de ajudar... otimo blog

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