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Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso

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30
Out08

A minha avó Brízida

Fátima Bento

A minha avó Brízida era uma mulher com M maiúsculo, e foi enfiada dentro de uma caixa de sapatos pela minha mãe, para que se moldasse a ela e não crescesse mais do que lho permitia.

 

A minha avó Brízida viveu a vida toda subjugada à filha que fez dela criada, mesmo antes da minha irmã nascer.

 

A minha avó Brízida punha as camas de lavado, lavava a roupa estendia-a na corda, passava-a depois a ferro.

 

A minha avó Brízida não se sentava com o resto da familia à mesa a comer o que tinha cozinhado com esmero para nós. Sentava-se num pequenino banco de madeira e comia do tacho ali ao pé, mas ninguém a conseguia convencer a sentar-se na mesa. Depois de todos comermos, lavava a loiça e arrumava a cozinha. E então ía para a sala para junto de nós, e via um pouco de televisão.

 

A minha avó Brízida usava a 'casa de banho pequenina', que ficava ao lado da cozinha, ao invés da grande, que o resto da família usava. Dormiamos, no entanto, no mesmo quarto, e era ela que me "lambia as feridas", que as havia sempre, e que me fazia sinais por trás da minha mãe quando ela ralhava, o que me deixava tão zangada, que me fazia explodir com mais vontade. Era atrás dela que me escondia quando a mãe vinha de colher de pau em riste, e que, quando esta me fechava na despensa, chorava do outo lado da porta, baixinho, até a poder abrir para eu sair.

 

 

A minha mãe, que sempre teve manias de 'Grande Senhora', tinha vergonha da minha avó Brizida, e da forma como ela se vestia - passajava as próprias roupas, e ninguém a convencia a substituir certas peças de vestuário que às tantas, já tinham quase mais linha que pano...

 

A minha mãe tinha vergonha da minha avó Brízida e não se coíbia de lho dizer. A minha avó empertigava-se, levantava  nariz, e passado algum tempo, quem entrasse na cozinha, encontrava-a de vista parada, a chorar por dentro.

 

Era esse o seu reino e lugar; a minha mãe alternava entre ser ela a aspirar e limpar o pó do resto da casa, ou ter uma empregada que o fizesse.

 

Quando eu casei, a minha avó Brízida mudou-se para minha casa, para ficar ao pé da neta que já tinha dois anos e meio, e para não voltar para casa da minha mãe, que até hoje, está sózinha, solidão que ela ergueu pedra a pedra. Dormia no quarto da Inês, e velava pela segurança da criança de forma intrusiva com os seus 84 anos, intolerável para o jovem marido e pai, que levou com a bagagem toda de uma vez. Nunca se entenderam os dois. 

 

Fui forçada a "recambiá-la" para casa da minha mãe - e sim, custou-me - quando engravidei do Tomás, a casa era pequeníssima, e a tensão entre ela e o meu marido crescente. Tinha 87 anos. 

 

Ficou triste.

 

Depois, após um curto interregno em que eu tentei lidar com a minha mãe, voltou a assistir a um corte de relações entre nós duas. E deixei de a ver...

 

Com 89 anos, no único ano em que trabalhei desde que fui mãe até hoje - e como eu gostava do meu trabalho... - voltou para a minha casa, porque, como a minha irmã pôs no almoço que tivemos as duas: "ou vai para tua casa ou vai para um lar". Trouxe empregada para cuidar dela, mas não resultava, nos fins de semana em que eu trabalhava, o marido acusava a falta de privacidade que a presença da empregada lhe causava.

 

Demiti-me, e voltei para casa, onde fiquei com ela, a minha filha e o meu filho, com três anos. Cuidei dela como pude, durante alguns meses, e depois voltou à casa da minha mãe, quando esta já estava restablecida do 'esgotamento' que a tinha feito quase internar a mãe.

 

A minha avó Brízida morreu com 91 anos. Não teve padre, só flores, e foi um funeral pequeno, já que a religião em que ingressara a reboque da minha progenitora, não incentiva a comunicar a morte a amigos e conhecidos.

 

Ficou uma saudade distante, de quando eu era pequenina, a cama de grades ao lado da sua e eu dizia: "avó, tenho medo..." e ela estendia a mão e ficava de braço estendido com a minha apetada na sua até eu estar mesmo a dormir; de quando era Verão e íamos para Sesimbra, dias inteiros na praia, e a minha avó com a sua bata vestida, à beira mar, pés dentro de àgua e olhos cravados na cria mais pequena... a minha mãe ficava - completamente vestida e maquiada - na barraquinha que alugávamos, a ler.

 

Quando a minha avó morreu, foi a minha verdadeira mãe que foi a enterrar. Só me não pariu, o resto fê-lo com distinção.

 

Fátima

 

 

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