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Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso

Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso

29
Fev12

Um gajo mal medicado pode matar. E não me venham dizer que é imputável.

Fátima Bento

Eu tinha por intenção não voltar a falar de depressão e afins por estas bandas, mas preciso mesmo de fazer este post para memória futura.

O meu psiquiatra, que me acompanhou durante 3 anos, saíu do comparticipado para o particular, e eu acabei por arriscar uma consulta num dos outros especialistas residentes no mesmo local onde o meu dava consulta.

Sabe-se, quem não sabe fica a saber, que desde a minha infeliz tentativa de incursão no mundo laboral, e posterior resultado, entrei numa crise depressiva que se foi aprofundando, e aumentando com o desenrolar do tempo.

Ora como nesta altura do campeonato anda meio mundo a ficar estressado à conta da atual conjuntura socio-económica, só consegui consulta para a passada sexta-feira 24. Juro que andei a contar os dias.

Agora é assim:

- não tenho nada contra o médico que me atendeu. Pareceu-me competente, capaz, sendo a única 'falha' detetada à primeira vista, o facto de 'eu não estou aqui para dizer mal do trabalho dos colegas mas ele hipermedicou-a'. So long coorporativismo, que se é uma coisa que às vezes até dá raiva, é, no fundo um sinal de respeito.

- E então foi assim:'vamos começar com uma abordagem suave, de dosagem baixa, pefiro assim, e se o doente necessitar depois aumentamos a dosagem*, rebéubéu'... falei pouco, para uma consulta de psiquiatria, mas deu-me algum alento o facto dele se ter apercebido de eu entrar às vezes em desespero**. Eu não teria escolhido uma expressão melhor...

- Saí do gabinete com receitas e uma cábula das tomas. De caminho para casa passei na farmácia, comprei os ditos medicamentos novos - a juntar aos que eu já estava a tomar e que ele não retirou - e comecei o tratamento nessa noite.

- No dia seguinte, como era de prever depois de, na véspera, ter lido as bulas - que mais pareciam testamentos - não estava propriamente aqui. Dormi o dia todo.

- Domingo, fui almoçar aos sogros e aguentei-me bem (até consegui ir ao Minipreço comprar iogurtes e não desmaiar na fila, apesar de ter ficado mal disposta - que era uma das previsões das bulas de pelo menos dois dos novos medicamentos). Não conduzi, óbvio, mas ninguém diria que estava drogada até à medula. Cheguei a casa, deitei-me e dormi o resto da tarde. À noite vi os Óscares (g'anda maluca!). Obviamente tomei tudo, certinho e diretinho, quando me deitei, e no dia seguinte segui o mesmo princípio.

 

[PARETESIS - os efeitos secundários (não me fiando nas bulas, que não tenho por hábito incorporar o que leio e passá-lo à prática) que tenho sentido são:

  • dislexia: é giro, teclo uma coisa e quando vou a ver está lá outra que "não sei de onde veio" e não faz sentido nenhum (a escrever o post anterior levei três horas e hão-de reparar que tem menos hiperlinks de que é costume...)
  • ausência de um centro de gravidade digno de tal nome. Digamos que as portas passaram a ficar mais estreitas e estou cheia de nódoas negras de acertar nas ombeiras...
  • sonolência... nem por isso. Sinto é necessidade de dormir. Já sentia antes, mas era reativo, neste caso sei que é provocado pelos químicos.
  • agressividade. Essa foi a parte mesmo assustadora.
  • ansiedade. Aquela merd@ era  suposto: contrariar-me a depressão (atordoada como me deixou, nos dois primeiros dias, quase que nem conseguia pensar, por isso, cumpriu - até certo ponto), e controlar-me a ansiedade, para evitar que eu entrasse no referido desespero.
  • Repito: CONTROLAR A PUT@ DA ANSIEDADE.

fim de parentesis]

 

Ora existem momentos no meu dia mais propensos à ansiedade. Um deles é  hora de fazer o jantar, que para mim é pior que cuspir na sopa e bater na avó. Entro sempre, ou quase sempre, em aflição, ou porque não decidi (ainda) o que o que vou fazer, ou porque quero ver aquela noticia e o puto começa a pressionar, ou... ou... pronto, a hora do jantar é uma hora negra. Segunda-feira saltaram raios e faíscas por todos os lados, praguejei, disse asneiras e palavrões (o que não foi uma estreia mas estes foram MUITO a sério...) fiquei atarantada, vim desembestada da cozinha para a sala despir-me para me deitar em vez de ir diretamente para o quarto, atirei com a roupa, era o Vítor a olhar para mim com cara de WTF??, e eu furibunda, furibunda, furibunda.

Deitei-me.

Não conseguia respirar.

Ouço o filho (que ficou solenemente sem jantar, ai-de-quem-se-atrevesse-a-contrariar-a-besta-enraivecida!) perguntar ao pai: 'queres chá?', assim, como se não tivesse acontecido nada(!!!), e recomeço a praguejar, a esbracejar, a espernear a mandar vir com um e outro por andarem a conspirar nas minhas costas (ói a paranóia), "que está tudo bem, eu é que sou a maluquinha!" Aparece-me o marido no quarto: Ó Fátima, eu nunca te vi assim! Palavra de honra, já passaste por tantas mudanças de médicos e de medicação e nunca te vi assim! E o meu lado lúcido responde-lhe isto é tudo da medicação há um que provoca surtos psicóticos e isto é psicose, e tunga, o outro lado continuava a argumentar que 'faz favor de dizeres ao teu filho que eu estou doente e que ele tem de ter cuidado com as merd@s que diz, que eu estou mais sensível' (diz a Godzilla). Marido bem mandado, volta com a resposta do filho: 'sabes  que ele disse? que também anda instável' (capaz de ser mais normal, ELE É QUE É O ADOLESCENTE, DUH!).

 

Pausa.

 

Vá lá, botem essas gargalhadas todas cá para fora que eu já estou fartinha de rir a escrever isto - que na verdade não tem piada nenhuma, mas rir de nós próprios é sinal de sanidade (isto só por si JÁ É uma piada)

 

Ontem.

Levantei-me com vagas de 10 metros a embalar a embarcação, às sete da manhã. De ombreira em ombreira (as nódoas negras contam-vos a estória, se quiserem...) entrei na cozinha e liguei a máquina de café (um dos efeitos das drogas é baixar a tensão, e o café ajuda, yeyyy! E deixar a boca seca. E pastosa. E a saber a cu) , misturei o iogurte com o müesli, e consegui chegar à sala sem tocar nas ombreiras das portas. Puxei do teclas, e pus-me a jogar mah-jong.

Agora, passado mais um dia, em que a ansiedade, à-hora-do-costume-começou-a-escalar, a coisa é assim:

- se alguém diz que eu não tentei tomar aquela gaita vamos ter mortos e feridos...

- se alguém pensa que eu vou continuar a:

- passar as passinhas do algarve, drogada até ao tutano, com o triplo da medicação qu'este senhor me deu a juntar a uma boa parte da que eu já tomava mesmo achando que eu estava "hipermedicada" (óy, ou é de mim ou isto não faz sentido?)

- sujeita a mandar com um tacho na carola de alguém à hora da janta (e os meus são de inox 18/10 com fundo triplo, pesam que se fartam...) - ou à hora que me contrariarem à seria, com o que estiver à mão...

- a beber litradas de água (isso já eu faço, mas neste caso é) porque a boca está seca e pastosa e a gaita é que nem adianta de nada...

- a comer que nem uma desalmada para ver se a boca deixa de saber a cu (presumo que seja a isto que o cu sabe...), e ela continuar a saber mal, e eu continuar a comer, etc., etc...

- sem conduzir porque, apesar (e isto é giro) de nas bulas dos medicamentos não proibirem a 'condução nem o manuseamento de maquinaria pesada', dizem que 'devemos avaliar se estamos em condições de conduzir', seja lá isso o que for...

- ESTÃO MUITO ENGANADOS!

Vou fazer uma inversão de marcha e confiar no meu bom senso... ora se quando eu comecei o tratamento com o dr N., farrapito que eu estava, ele me receitou 100+100 mg de sertralina, 5mg de diazepan ao jantar, e 100mg de trazodona ao deitar (acompanhado ou não de cymerion, a usar em caso de sos) e a coisa funcionou, porque diacho é que eu hei-de empaizinar-me com 100 mg de sertralina +40 mg de pacinone, repete os 40mg de pacinone ao jantar e ao deitar, amando-lhe com 30g de Mirtazapina + 50 mg de Seroquel SR (acompanhado de cymerion, se eu achar que sim).

Ora, BATATAS!

Volto à casa da partida e nem quero os duzentos euros. Fico-me pelos 200mg (100+100) de sertralina/dia, 5mg (ou 10) de diazepan ao jantar e 100mg de trazodona mais um cymerion ao deitar (desmamar este último, à partida, no prazo de um mês, tops).

Canudo, lido com esta porcaria há 32 anos, GARANTO QUE ESTE NÃO É o tratamento que necessito. Ó sô tôr, foi um nadinha (tipo 180º) ao lado...

Desculpem o testamento. Mas ficou registado porque posso vir a necessitar de verificar datas e outros pormenores.

 

 

Ciao, belli!

 

* se isto á assim com a 'dosagem baixa, imaginem o senhor aumentar a dita!

** Ná! Desepero foi o estado que atingi na segunda-feira à hora do jantar... ensando bem, acho que ultrapassei largamente o desespero, então...

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