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Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso

Diário de uma dona de casa 2.0

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19
Fev08

Jesus Cristo Superstar - a Obra de Tim Rice segundo La Féria

Fátima Bento

Sobre uma cortina estava projectado o logótipo do musical, enquanto esperávamos o início do espectáculo. E depois a sala escureceu, e, acompanhando os acordes da 'ouverture ', sou surpreendida com uma projecção, apontando o dedo ao "mal" no nosso presente, agora, século XXI.

 

E depois subiu o pano e ... no final senti as mãos quase inchadas de aplaudir, de pé, e a voz já falhava uns quantos "Bravo!" obrigatoriamente incontornáveis numa ovação mais que merecida.

 

Queria aqui conseguir transmitir tudo aquilo que senti enquanto assisti  ao espectáculo, mas, tal não é, de todo, possível.

Posso no entanto realçar alguns pontos, aqueles que mais receava, e que foram ultrapassados com maestria.

 

Num país católico e de brandos costumes, a abordagem acabou por revelar-se um nadinha... soft . Segundo o próprio LaFéria , esta obra é "a visão de Cristo nos olhos apaixonados e inteligentes de Judas". E é exactamente essa a primeira "surpresa" do espectáculo: o protagonismo totalmente assumido por Pedro Bargado (um GRANDE actor, a ter debaixo de olho...) num Judas verosímil, humanamente confuso, cheio de dúvidas e questões, nunca, no entanto, pondo em casa o seu amor àquele que irá trair.

Diz, na introdução do libreto, que "tarde demais ele apercebe-se que foi apenas um peão no grande plano de Deus".

E isso, mais uma vez, vem de encontro a um pormenor nada ínfimo, que deixou a minha mãe "possessa" comigo mais de uma vez, e pôs catequistas, padres e pastores de mãos na cabeça "o que é que a gente lhe faz?"

A questão é simples: se Jesus nasceu para salvar a humanidade, morrendo na cruz ao completar 33 anos, com estava escrito, sendo para o efeito traído por um dos seus discípulos favoritos, porque cargas de água é que o desgraçado do homem foi "amaldiçoado para todo o sempre", só por ter feito aquilo que era suposto ter feito, que estava escrito que tinha de fazer?

Num registo livre e blasfémico, será este Deus, (a existir...), fazendo uso de um homem que acaba angustiado e enlouquece, e que, sucumbindo ao único final possível para lhe ser concedida alguma paz de espírito, põe fim à própria vida, ser o Ser iluminado e bom que as religiões nos servem de bandeja com pano de linho bordado?

 

(eu só perguntava porque é que eles achavam que ele era mau...)

 

No entanto, Jesus é tratado com um respeito reverente, estando David Ventura insuperável na serenidade, conseguindo transmitir ao espectador  o calor que emana de um ser iluminado por dentro, que tranquiliza só de olhar e ouvir.

Reverência levada até ao último segundo do espectáculo, como todo o resto, memorável.

Aliás, como só podia ser tratado. Jesus é uma personagem histórica, que marcou o caminho da Humanidade, de formas que, acredito, nem ele imaginava ser possível, nem nos seus sonhos...

Acho que já "apanharam" todos que sou ateia. Convicta, convicção que me vem de ter conhecido quase todas as religiões cristãs, inclusive com um pulinho ao Espiritismo, porque a  minha mãe, a tal que em 1973/74 era beata católica fervorosa, meteu na cabeça que sabia a bíblia melhor que ninguém e vai de percorrer todas as que lhe passaram debaixo do nariz em busca da que a considerasse "a iluminada".

Debalde.

Só conseguiu que eu ficasse com uma ideia muito vincada de que, se nem só de pão vive o homem, eu quero o meu inteiro, que me recuso a comer o que quer que tenha sido mastigado por terceiros, por melhor que seja a sua intenção.

Por isso, com toda a isenção que me assiste, digo que "Jesus Cristo Superstar é um espectáculo em que só perde quem não o vai ver. Crentes e cristãos são respeitados, e nós, os "desconfiados" ganhamos um pitéu de primeira água, ali espevitadíssimos a apanhar as malhas que vão, discretamente, caíndo.

Não, não é um espectáculo aconselhável.

É obrigatório.

 

Fátima

P.S. - e não sendo nada barato, vale cada cêntimo...

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