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Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso

Diário de uma dona de casa 2.0

... à beira de um colapso

24
Set13

CHEGOU!!!!!!

Fátima Bento
Oito anos a namorar um livro, é obra!
- mas valeu a pena...
Ficou já, já na calha, para ler mal acabe o livro de esferovite deste momento: "As mulheres casadas não falam de amor",da Melanie Gideon, de que estou a gostar imenso, pela diferença  - daqueles livros que nos faz crer que só não escreve um livro quem quer - como se fora só isso... em papel e português, ai que saudades que tinha de ler na minha língua, só me apercebi o quanto quando o comecei a ler.
No Kobo, a ler agora (ok, parei, lá terei de o recomeçar já que estes dois 'valores' que acabei de mencionar lhe passaram à frente à mais-ou-menos má fila) "Where'd you go, Bernadette" de Maria Semple (também disponível em português), "The Gospel accordind to Coco Chanel", por Karen Karbo, e "The woman who went to bed for a year", da Sue Townsend, este último num desafio de/à Cláudia, cuja crítica, aqui me deu vontade de ler, já que duvido que o livro seja assim tão sem sentido. Retratar-me-hei aqui se disso for caso.

Em cima da mesa de centro da sala, em meio uma pilha de coffee table books de culinária, e mais duas pequenas pilhas de revistas de Setembro/Outubro, marcado com os óculos de toupeira que preciso para ler, está "A dieta dos 31 dias" da Ágata Roquete, a-ver-a-ver se me convenço a fazer um pequeno esforço de um mês (um mês passa a correr, sabemos bem disso, ó se sabemos) para perder 5 quilos e ver se me concentro no que como, que eu ando um nadinha à deriva.
Nisso como quase em tudo...
(nada de novo, portanto...)
E prontx, no que diz a leituras estou de mãos cheias.
Qu'a bom!

P.S: para quem não sabe o que dar aqui à menina no dia dos anos (sim, falta assim a modos que mais ou menos uma semana), faltam-me - faltam-me porque me fazem mesmo falta - os três primeiros livros de crónicas do Lobo Antunes (só tenho o quarto... e o que eu gosto dele!)

 

08
Jul13

E já passou uma semana!

Fátima Bento

Uma semana sem dizer nada é uma vergonha, mas também não há assim tanto para dizer.

O pai continua internado, e voltou a cair no estupor das alucinações, e nós à espera de saber quando é que lhe dão alta, que com este calor o ir-e-vir, cansa, já para não falar nos diálogos ilógicos em que temos de entrar. Qualquer dia estamos as duas malucas, sai ele todo pimpão para casa e vamos nós passar uma semanita ou duas à ala psiquiátrica - estou a brincar, não há nada que queira mais de que vê-lo sair de lá... dia 13 faz 2 MESES de internamento...

De resto, fui abalrroada por um cilindro daqueles de alcatroar as estradas de 16 anos, que ainda agora ouço aquelas palavras sempre que me deito e espero o Morpheu.

E vi uns filmes este fim de semana - um deles fui obrigada, o marido não sabe, mas fui, que eu só queria a minha caminha, mas depois lembrei-me que ia ouvir o cilindro, e ok, lets go.

Vi o 'Velocidade furiosa 6', o 'Olympus has fallen' (muito bom para quem gosta de filmes de nos agarrarmos à cadeira), e ontem o 'Trance' - o tal do Danny Boyle em que a Inez participou nos bastidores. Muitíssimo bom, o plot dá montes de cambalhotas... também vi o 'Hysteria', que salvo erro está em exibição com o nome 'Vibrações', ou coisa parecida, e que é uma comédia deliciosa.

Ler, óy, tenho lido muito Jhon Katzenbach, desde 'La Sombra', 'What comes next', 'Juegos de ingenio' e agora comecei o 'The Swan Thieves' da Elizabeth Kostova que, apesar de ter em papel, comprei a edição digital...

Portanto, quando o pai estiver em casa, e eu mais relaxada, VEJAM LÁ a quantidade posts que vou escrever! 

Por agora, vou vestir-me (ui) para sair (uiuiui) passar pela farmácia e ir até ao hospital.

Bacci!

28
Abr13

A ler agora:

Fátima Bento

No reader um clássico da psicologia, intemporal (de 1990), de um autor com um nome impronunciável:

Debaixo de olho (mas em papel):
 
(e por ora a Fnac online, na pré-compra do primeiro, oferece este:)
  
26
Mar13

E por aqui tem sido assim:

Fátima Bento

Lê-se. Vêem-se: coisas na televisão (não muitas, a paciência está a acompanhar a idade em função inversa), no cinema, e  outras no computador.

Mas primeiro o que tem sido o principal:

Tenho lido.

Os dois últimos foram

  &  

Em comum Têm o fato de serem ambos thrillers. O primeiro, não está disponível em Portugal, exceto em versão digital, e no original. É um excelente nail bitter (i.e, 'roedor de unhas', como é classificado na capa). Não dá vontade de pousar. Fez-me lembrar Mary Higgins Clark, por quem tive uma admiração enorme há uns anos, e de quem li dezenas de obras - até que comecei a reconhecer o esquema de escrita - os autores que produzem muito acabam por optar em seguir (por ser muito difícil resistir ao facilitismo), a um esquema pré-feito que faz um leitor atento começar a adivinhar o final. Às tantas, aborrece.

Este 'You don't want to know', manteve-me pendurada praticamente até ao final. E por isso não tenho intenção de ler, nos tempos mais próximos, outro livro da mesma autora. Gostei muito.

 Já o segundo, existe em português E em papel. Penso que é um livro perfeito para oferecer a um adolescente com preguiça de ler - e que não seja facilmente impressionável. 

O engraçado é que existe uma estória pessoal por detrás do livro: há coisa de um ano atrás 'cruzei-me' com ele numa prateleira qualquer, e li uma ou duas paginas ao calhas. Fiquei cheínha de vontade de o trazer comigo, mas não foi possível. Tentei decorar o nome, mas a única coisa que ficou foi 'serial killer', e andei a pesquisar a coisa, mas não consegui encontrar nada.

 Há coisa de uma semana, a 'passear' pelo site de compras para o meu reader, dei com ele. Duvidei da sorte. Descarreguei a amostra. Mal li os primeiros capítulos, procedi à compra, e não me arrependi. O autor consegue colocar-nos dentro da cabeça de um adolescente sociopata que se autocontrola través de uma serie de 'regras' que criou com base na pesquisa feita na forma como os psicopatas são, agindo por oposição. 

 Até que um dia começam a ser descobertos cadáveres violentamente assassinados, e... 

 ... e é difícil falar mais sem ouvir 'obrigado pelo spoil, mãe' outra vez. Mas a verdade é que nem é spoil nenhum, mas ponto, não digo mais nada. O livro é empolgante sem ser me ter tirado o fôlego, e não me desiludiu. 

 

Recomendo, portanto.

 

Intercalei estes dois livros com este, que ainda vou lendo: 

Mas este 'menino' merece um post só para ele. Quanto mais não seja porque não é bem o que parece, embora seja mesmo um livro de desenvolvimento pessoal, sim senhores, mas... mas é divertido e... bom, hei-de falar dele outro dia. Passou de um enorme ponto de interrogação para um dos meus livos preferidos.

23
Mar13

O(s) meu(s)primeiro(s) livro(s)

Fátima Bento

Comecei pela Enyd Blyton - sim, pelo Noddy, que na altura, inicio dos setentas era de formato muito mais pequeno, e tinha muito mais letras que agora - e segui para 'As Gémeas', 'O colégio das Quatro Torres', 'As aventuras dos Cinco...'

Mas o que me despertou mesmo para a leitura, aquela coisa de agarrar e não largar, aconteceu devia eu ter uns oito ou nove anos, e foi uma obra de uma colecção de que já pouca memória existirá: a colecção (e neste caso, o 'C' mudo faz toda a diferença) Delly.

(esta foto é uma preciosidade encontrada no google imagens...)

Em casa haviam inúmeros volumes da mesma, que pouco mais era de que 'literatura de cordel', e a minha mãe indicou-me uma obra em quatro tomos:

  1. 'A criança abandonada'
  2. 'O príncipe misterioso'
  3. 'O Deus hindu'
  4. 'A dama de fogo'. 

De pouco me lembro em relação à trama; recordo que perdi o sono com uma passagem que mencionava o emparedamento de alguém, que me fez dormir de luz acesa mais de uma semana... e lembro-me de agarrar no primeiro volume e ir até ao último de um fôlego - só não me perguntem quanto durou o fôlego, que já passaram uns anitos...

Daí até agora, os livros têm sido os meus companheiros - passo o cliché, aquela 'coisa' que me faz 'sair daqui', tirar férias do agora e projetar-me noutros lugares, às vezes dentro de mim própria. 

E além de durar mais, um livro proporciona uma viagem onírica em nada comparável a um filme, the best next thing. Não só porque nos estimula a imaginação, como porque... dura mais... 

 

11
Mar13

Eu e as planificações...

Fátima Bento

Não gosto de fazer planos. A serio, não gosto mesmo.

Acho piada (não tomem isto como ofensivo, nem nada do género, p'amor da santa) àquelas pessoas que se organizam, por exemplo, para o que vão ler nos próximos três meses. Acho.

Eu, que leio que me desunho, mas até podia ler mais e sei bem disso, não me consigo imaginar a fazer uma lista de títulos, quiçá a empilhar os volumes e a decidir são estes. Até dou de barato que a ordem fosse aleatória, mas aflige-me. Daqui do sofá, olho para a estante e vou dar um exemplo... um por semana até ao final de Abril:

 

Março

  • semana de 09-16: A Cabana Wm Paul Young
  • semana de 17-23: Ilha Teresa Richard Zimler
  • semana de 24-31: Memória de elefante António Lobo Antunes

Abril

  • semana de 01-07: Auto-retrato do escritor Haruki Murakami
  • semana de 08-14: Maudit Karma David Safier
  • semana de 15-21: Inteligência, Osho
  • semana de 22-28: The cradle will fall, Mary Higgins Clark
Bonito, não é? Bonito, fazível, arrumadinho, e, aqui é que reside o busílis da questão, previsível.
Por exemplo, agora estou a ler um livro no reader, acho que se lhe pode pôr o selo de policial, embora eu prefira chamar-lhe thriller, já que não mete polícia (os da Mary Higgins Clark também não, e são policiais, por isso...) que se chama 'You dont want to know', da autoria de Lisa Jackson. Li a 'amostra' na sexta à noite, e comprei o livro na manhã seguinte. E é um prazer fazer assim: apetece-me
Argumentos contra: o preço não vale, o livro custou-me pouco mais de que uma revista, €5,40. Por isso passemos ao argumento que pesa mais na minha consciência: quilos de livros por ler nas prateleiras. E eu a saltitar e a procurar coisas novas enquanto deixo para trás o que já tenho. Mau, muito mau, dona Fátima!
Acho que das largas dezenas de tomos que povoam as prateleiras, nem 50%/50% se podem considerar lidos/por ler.
Mas a questão aqui, é programar um prazer.
Li no final do ano passado, um livro da Laura Vanderkam, "168 hours, You have more time than you think". É muito bom, mas assusta-me um bocadinho a ideia de primeiro, fazer a contabilização, quase ao minuto, de como gastamos as nossas 168 horas numa semana 'normal'; depois a posterior planificação de onde podemos cortar excessos, a substituir por outras tarefas mais úteis - e a definição de útil aqui pode aplicar-se ao que nos dá mais prazer, não é tratar-nos como se fossemos máquinas... - embora eu fique sempre com essa sensação.
Quem já leu 'O poder do agora' de Eckart Tolle, ou está por dentro da filosofia zen-budista (e, já agora, Osho fala sobre este mesmo assunto em 'Liberdade', da lista acima, e que também estou a ler agora), terá uma ideia do que estou a falar. O importante não é planear o que vou fazer... o importante é o que faço, porque só tem valor o que se passa agora, não que se passou há uma hora, nem o que se vai passar daqui a cinco minutos.
Isto já para não mencionar as expectativas: fazes a lista surgem atividades inesperadas, e começas a derrapar, o que vai criar-te ansiedade, que vai aumentando à medida que o tempo vai passando e os livros começam a escorregar para fora da 'time-table' que criaste, e acabas a sentir que falhaste. Parar evitar isso, também podes desandar a ler numa velocidade demasiado acelerada para desfrutares do conteúdo do livro, e esqueces que o verdadeiro prazer da viagem consiste em percorrer o caminho, não em chegar ao destino, passo o cliché.
Não se enganem, porém: gosto de listas. De fazer listas, de ler listas, mas listas sem prazos de validade. Os prazos arrepiam-me um bocadinho, para não dizer um bocadão.
Há forma de atingir objetivos sem nos colarmos datas no calendário, e que resultam.
Sugestão: conheçam um senhor chamado Leo Babauta. Além de uns quantos livros editados -  em inglês ou francês - tem um blogue fantástico, que podem conhecer aqui. Vale a pena, muito a pena.
05
Mar13

A minha história com Bob - admirável mundo novo!

Fátima Bento

Eu não sei.

Não sei se é porque os anos começam a acumular - e por isso ainda me lembro da telescola, da mira técnica, da RTP1 iniciar a emissão às 18:00h, a RTP2 às 19:00h, e impreterivelmente às 23:00h ouvirmos o hino e vermos a bandeira a ondular, sinal de fim de emissão. Ainda me lembro de ver o Vasco Granja e os seus 'desenhos animados' de leste (que enfado!) pontuados de quando em quando com algum Tex Avery ou Hanna Barbera (g'anda festa!).

A gente lia que se desunhava, não só mas também, muito princípalmente, nas férias (o que é que faziamos com tanto tempo livre?). E os livros eram horas de viagens por outros mundos, e o autor era um nome na capa. Por muito que a gente o admirasse, era um nome, às vezes com uma foto, na capa.

Agora, não me canso de ficar deslumbrada. A gente lê o livro e à distância de um clique está o autor e com sorte o personagem principal, de carne e osso.

 O último caso com que me deparei, falei dele aqui, quando li o livro. E não cheguei a dizer nada sobre o mesmo...

Pois que o livro é uma delicia.. Pois que é tão comovente, o que um gato pode fazer por alguém. O que um gato decide fazer por alguém.

Este é um livro para quem conhece gatos.

 (seria uma redundância dizer que é para quem gosta de gatos, porque quem os conhece MESMO, fica sem alternativa). E admito que, mesmo para quem conhece os felinos, esta história pede um bocadinho de fé. Que acreditemos que não há coincidências, e que existe uma finalidade desde aquele primeiro encontro fortuito nas escadas do prédio de James, até hoje.

Li o livro de uma assentada, com o gostinho extra de conhecer os locais onde a narrativa se desenvolve, nomeadamente a zona de Angel, onde James e Bob vendem o jornal/revista equivalente à nossa 'cais'.

E depois o livro acaba. E depois?

E depois, admirável mundo novo, clicamos aqui, e acompanhamos o agora no facebook.

E podemos também acompanhá-lo no twitter: @StreetCatBob

E isso é mágico.

E é uma pena que esta nova geração não consiga abranger a magia.

Ou talvez eu me esteja a transformar numa velhinha saudosista.

Whatever. 

Não vou é cansar-me de me sentir maravilhada e de me deslumbrar com o facto de bastar estender o braço para quebrar uma barreira que era tão grande que nem a víamos quando éramos pequenos.

28
Fev13

"Em Parte incerta" - um post longo porque não podia ser mais curto. Pelo menos para mim.

Fátima Bento

“Um mau livro é um livro que conta uma estória”, António Lobo Antunes

 

Como milhões de pessoas em todo o mundo, comprei ‘Em parte incerta’ por ser, tão só e apenas, ‘O livro do momento’; ‘A obra de que se fala’; ‘O nº1 o New York Times’; ‘O livro do ano’, segundo o Observer…

Se toda agente anda a ler e a opinar, eu não quero ficar de fora. Às vezes sou assim tão infantil – e às vezes sou até mais um bocadinho: quero ver ou ler antes de toda a gente…

Parti de uma premissa perturbadora: a unanimidade. TODA A GENTE adorava o livro. Toda a gente dizia entrar num estado muito similar ao ‘síndroma de abstinência’ quando o acabava. Assustador, nada pode ser unânime - nem a mediocridade…

Comprei, então a versão original, ‘Gone girl’, para o meu reader.

E comecei-o. Devagar, que é como gosto para conseguir ver onde ponho os pés quando começo o caminho. Para sentir cheiros, adivinhar emoções.

Gostei logo da escrita, que nos arrasta (e a si própria) nas primeiras 100 páginas, ou isso. Gillian Flynn escreve com a cadência de uma raquete de ténis de mesa que bate numa bola presa ao cabo por um elástico.

Ping… pong… pong… tuc… POW… ping… pong… pong… pongpingpow… pong… ping… ping… 

e leva-nos atrás, naquela cadência quase hipnótica. E não devem ter sido poucos os leitores que, embora não o admitam, tiveram o secreto desejo de

a) não ter comprado o livro

b) não ter começado a ler o livro

c) não se sentirem na obrigação de continuar e acabar de ler o livro.

Eu senti-me suficientemente intrigada para nunca pensar em largar a leitura. Quem me arrasta qual peso morto por terrenos sinuosos merece, no mínimo, o meu interesse.

A trama consiste, no desaparecimento de Amy, no dia do 5º aniversário do seu casamento com Nick, e dos esforços subsequentes para a encontrar, viva ou morta. Para descobrir a estória por detrás do desaparecimento. Para descobrir quem, quando, como, onde e porquê.

Na primeira parte do livro, temos o relato do dia-a-dia de Nick, desde um nadinha antes de descobrirem a falta de Amy. E segue com o relato do primeiro dia, e seguintes. Cada capítulo de Nick é intercalado por outro, que consiste numa página do diário de Amy.

PING.

PONG.

Vemos os personagens por dentro. Vemos as suas fraquezas, a forma como tentam superar as dificuldades, o sentir-se perdido, temos contacto com as muitas formas que o desespero pode ter. Sem que nos apercebamos, realmente, que é disso que se trata, que é isso que está em cima da mesa de Nick, é isso que está por baixo da otomana de pernas para o ar, e da completa impossibilidade da mesma ser virada acidentalmente durante uma luta.

A segunda parte continua dividida com um capítulo para Nick, um para Amy, já debaixo de outros projetores, já com outras sombras.

É como se no início do livro assistíssemos a cada um dos dois protagonistas a entrar num lago de águas tranquilas e começarem a nadar calmamente à superfície. Volta e meia há uma cãibra ligeira, que vale um pirulito, nada mais grave de que isso. Algum cansaço, mas nada que uma rotação do corpo e algum tempo a boiar não resolvam.

 

Na segunda parte, torna-se cada vez mais difícil cada um se manter tão à superfície; Amy puxa-nos abruptamente para baixo e obriga-nos a ver raízes, objetos inquietantes e indefinidos que se encontram logo abaixo da linha de água, e onde facilmente qualquer um dos nadadores pode prender uma perna e ficar ali, a esbracejar com maior ou menor capacidade de sobrevivência.

Nick continua numa espiral cada vez mais descendente, e os podres começam a vir à tona, como balões de oxigénio a ser libertados para a superfície a intervalos mais ou menos regulares. Ao contrário do que seria de supor, a aparentemente obvia trajetória condenada de Nick vai-lhe dando uma leveza maior. É um olhar no espelho para um reflexo fiel a si mesmo, a cada saco de lastro que se liberta, ele vai ficando uma pessoa mais inteira, e vai sendo forçado a lidar com situações das quais fugiu a vida toda, o que o obriga a crescer.

Já Amy, que começa a segunda parte num aparente crescendo, vai desmontando o seu ’boneco’ e deixando o flanco cada vez mais exposto. Sem surpresas, sem montagens, what you see is (almost) what you get - e isto é completamente díspar do que é empratado é colocado a nossa frente, talheres nos seus lugares, bon apétit.

Enquanto que Nick fica ‘maior’, em meio ao aceitar lidar com tanto daquilo de que fugiu toda a vida, Amy vai encolhendo enquanto os subterfúgios vão pingando um a um e fazendo uma poça de cera seca no chão, não deixando quase músculo no osso.

Na terceira parte existe uma (des)construção total. Quem fez o quê? Os pontos fracos de Nick poderão ser gratuitamente atribuídos à sua relação com o seu pai, sem mais preâmbulos nem embrulhos decorados, quando agora, nus em frente ao espelho, vemos que nada é simples, preto ou branco, muito menos tão só e apenas o que nos parece à primeira vista? A personalidade de Amy pode ser ou não atribuída à sua relação com os pais-perfeitos, flawless e com objetivos inalcançáveis para qualquer um que não uma personagem literária em que tudo passa a a ser exatamente como escrevemos que deve ser.

Em parte incerta é um livro sobre pessoas. E um livro que nos leva a criar teses e antíteses, que nos deixa espreitar, por detrás do pano, por baixo da saia de cada um dos personagens, e a observar a teia intrincada de emoções que compõe cada um dos protagonistas. Gillian Flynn vai mais longe, e dá-nos ferramentas para, se o desejarmos, desconstruir as personagens, e observar cada peça que as constitui, como os putos curiosos fazem com os brinquedos mecanizados. Coisa que não fazemos porque ler este livro não é um trabalho de psicanálise.

Resumindo e baralhando: Gone Girl não é um policial, e o selo ‘thriller’ pode induzir muita gente em erro. O livro não é também um romance. Em parte incerta é uma obra de ficção que pode ser lida de duas formas:

Primeira: A mulher desaparece, o marido procura-a com a ajuda da polícia, depois vem os despicable media, e montada a barraca, segue-se o circo ah afinal foi ele/ah, eu sabia que não podia ter sido ele, ao sabor da informação que vai sendo veiculada. E depois… depois não estou aqui para estragar surpresas, mas acompanha-se a estória até à última página e pronto. Ponto.

E o livro visto desse ângulo, de acompanhamento da estória tão-só-e-apenas é, na minha opinião, mediano. Mas mediano tipo 3 em 1-5, nem sequer com um sinal de mais.

Segunda: põem-te o prato à frente, bonitinho pegas nos talheres e desarrumas. Porque nada é  que parece. O puré nem é de batata - nem sequer é puré. O bife tão pouco é carne. A salada lá por ser verde, não é salada. E acompanhas o desenrolar da trama a escangalhar pratos, a aplicar diluente sobre superfícies recém-pintadas, a decapar madeiras perfeitamente envernizadas. A única certeza que fica é de que mergulhaste mais fundo, e às vezes até poderias te tocado com os dedos na areia do fundo do rio, se tivesses querido.

Vista desse angulo, a obra é brilhante.

E isso é tudo. Pelo menos para mim é tudo o que basta para considerar Gone Girl um dos melhores livros que li. E um dos poucos que tenciono reler.

26
Fev13

ISTO NÃO É NADA DO QUE PARECE

Fátima Bento

E ontem, passavam poucos - menos de cinco! - minutos das cinco da matina, quando carreguei no canto inferior esquerdo do reader, e... "ackowledgments".

Pronto.

Tinha chegado ao fim de 

e de uma maratona de um nadinha mais de cinco-horas-cinco sem largar o leitor.
Porque já o tinha começado a ler há uns dias, porque se meteu a gripe, as mialgias, a incapacidade de sequer pegar e manter o Kobo em posição, porque depois quando já conseguia, era a bendita da febre, que não me deixava ultrapassar o terceiro capitulo de enfiada, e depois fui albarroada pela noite dos Óscares.
E ontem fui ao sabor da ondulação e deixei-me ir a boiar agarrada às palavras, até onde fosse dar.
Depois, apaguei a luz, fiz 'colinho de miminho' para a Mia, e fiquei até às 6:00h a pensar no que tinha lido, a avançar, recuar, analisar, recordar. E cheguei a uma mão cheia de conclusões. 
Das pouquíssimas críticas que li sobre o livro, TODAS positivas, de semi-reverência, e de uma unanimidade assustadora (a mim os uníssonos assustam-me, é isso e detestar simetrias, está-me na massa do sangue... dá-me voltas...), dá-me ideia que
ninguém reparou no elefante no meio da sala.
Não estou a dizer que sou particularmente iluminada, mas a impressão com que fiquei, ainda não a li em lado nenhum. Por isso estou em pulgas para arrumar os pensamentos em filas, como os soldados de terracota encontrados no túmulo do primeiro Imperador da China e botá-los aqui no papel. Depois, só então, vou pesquisar criticas, e concerteza, encontrar mais um ror de gente que 'leu o mesmo que eu'.
E isso é trabalho para fazer hoje, embora a sua publicação fique para amanhã.
Sorry, mas este é um 'trabalho' que ninguém me faz apressar.

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